O paciente chega de maca, com colar cervical e suspeita de fratura no quadril. O pedido é uma radiografia da bacia e um perfil do fêmur. O manual de posicionamento descreve as duas incidências com o paciente rodando a perna, deitando de lado ou elevando o membro. Nenhum desses movimentos é possível, e alguns deles não devem nem ser tentados.
A radiografia ainda precisa sair com a anatomia inteira, sem rotação que atrapalhe a leitura e com a exposição certa. E, de preferência, na primeira tentativa.
A radiografia começa antes do botão
Boa parte do que define a qualidade de uma radiografia é decidida antes da exposição: onde fica o receptor, de onde vem o feixe, com que ângulo, a que distância, quanto do campo é aberto e como a exposição será controlada. Num paciente que colabora, essas decisões estão prontas no posicionamento padronizado. O técnico reproduz a incidência descrita e o resultado tende a ser previsível.
Quando o paciente sente dor, está imobilizado, tem a mobilidade reduzida ou um biotipo que dificulta a aquisição, o posicionamento padronizado serve de referência, mas não pode ser reproduzido como está. O objetivo do exame continua o mesmo, mas a forma de chegar a ele precisa ser decidida ali, para aquele paciente. Em vez de colocar o paciente na posição do livro, o profissional precisa planejar a geometria do exame a partir da posição em que o paciente consegue ficar.
Primeiro, a exposição precisa ter um motivo
Pacientes de ressonância magnética também chegam com dor, trauma e limitação de movimento. Há duas diferenças importantes na radiografia. Ela é o exame usado na avaliação inicial da maior parte dos traumas agudos, com frequência em pacientes imobilizados e no pronto atendimento. E utiliza radiação ionizante, o que faz de cada exposição, e de cada repetição, uma dose que precisa se justificar.
A proteção radiológica parte de dois princípios que se aplicam a esse momento. Justificação: a exposição só deve acontecer se o benefício esperado superar o risco. Otimização: quando ela acontece, a dose deve ser a menor compatível com uma imagem que responda à pergunta clínica.
A justificação nem sempre é simples. Em 2026, um consenso publicado na revista Radiology reuniu 34 especialistas de 21 centros acadêmicos (radiologistas, médicos de emergência, ortopedistas e otorrinolaringologistas) para examinar doze regiões em que a radiografia costuma acrescentar pouco à decisão: costela, escápula, sacro, cóccix, esterno, articulação esternoclavicular, ossos nasais, mandíbula, ossos da face, seios da face, partes moles do pescoço e crânio. As 58 recomendações chegaram a consenso e foram endossadas por seis sociedades médicas americanas.
A decisão de pedir o exame cabe a quem solicita. Mas o profissional que vai realizá-lo também participa da justificação: confere se o pedido corresponde à situação do paciente, se as incidências solicitadas respondem à pergunta e, principalmente, se cada exposição adicional tem razão de existir.
Quando o paciente não pode se mover, o equipamento se move
Na radiografia de trauma, a regra prática é posicionar o feixe e o receptor em torno da anatomia, na posição em que o paciente já está.
O exemplo mais conhecido é o perfil com feixe horizontal. Na suspeita de fratura do colo do fêmur, o membro não deve ser rodado. No trauma de joelho ou de perna, virar o paciente de lado para fazer o perfil move o segmento que se quer proteger. A alternativa é manter o paciente de costas, posicionar o receptor ao lado do membro e direcionar o feixe na horizontal. No joelho, essa incidência ainda oferece uma informação a mais. Quando uma fratura atinge a articulação, gordura da medula óssea e sangue podem chegar ao espaço articular. Com o paciente deitado e o feixe horizontal, os dois se separam em camadas, e a linha entre eles aparece na imagem. Essa linha é um sinal de fratura dentro da articulação mesmo quando o traço da fratura não está visível.
O mesmo raciocínio vale quando a parte do corpo não pode ser alinhada ao receptor. Angular o tubo para compensar a inclinação do segmento evita forçar a articulação, mas tem consequências que precisam ser previstas:
- Distorção. Quando o feixe não chega perpendicular ao receptor, as estruturas saem alongadas ou encurtadas na imagem.
- Campo fora do receptor. Um tubo deslocado ou angulado pode projetar parte do campo para fora da área útil do detector, e essa parte não aparece na imagem.
- Ampliação. Numa radiografia do tórax feita com o paciente deitado, em incidência anteroposterior, o coração fica mais longe do receptor do que na incidência posteroanterior feita em pé, e sai ampliado. Quem interpreta precisa saber como a imagem foi adquirida.
- Grade. Quando se usa grade antiespalhamento, angular o tubo no sentido perpendicular às lâminas faz a grade bloquear parte do feixe que deveria formar a imagem, e o resultado fica subexposto, no todo ou em parte.
Poucos centímetros mudam a imagem e a dose
No controle automático de exposição, câmaras posicionadas atrás do paciente medem a radiação que atravessa o corpo e encerram a exposição quando a quantidade medida é suficiente. O equipamento decide o tempo de exposição a partir do que está diante dessas câmaras.
Isso funciona bem quando a anatomia está onde se espera. Um estudo publicado no Journal of Medical Radiation Sciences testou o que acontece quando ela não está. Os pesquisadores usaram um simulador antropomórfico, um boneco que reproduz a atenuação do corpo humano, e deslocaram o centro do feixe de centímetro em centímetro, até cinco centímetros para cima, para baixo e para os lados, em exames de tórax, abdome, coluna lombar e pelve.
Em 54 das 80 combinações medidas, a dose mudou de forma estatisticamente significativa. No abdome e na pelve, o deslocamento chegou a reduzir em cerca de 75% o kerma no ar, a medida usada para a quantidade de radiação da exposição. No tórax, chegou a aumentá-lo em cerca de 50%. A relação sinal-ruído da imagem variou de uma queda de até 49% a um ganho de até 25%. Segundo os autores, as diferenças significativas apareceram com frequência a partir de um ou dois centímetros de desvio.
No paciente de trauma, centralizar a região de interesse sobre as câmaras do controle automático nem sempre é possível. Quando a anatomia não pode ficar onde o equipamento espera, o profissional precisa decidir se mantém o controle automático, se muda as câmaras selecionadas ou se define a técnica manualmente. Essa decisão depende de entender o que o controle automático mede.
O biotipo também muda a geometria
O biotipo do paciente interfere no exame de duas formas.
A primeira é física. Quanto mais espessa a região atravessada, maior a proporção de radiação espalhada que chega ao detector junto com a radiação que forma a imagem. A radiação espalhada reduz o contraste, e combatê-la exige colimação mais cuidadosa, escolha adequada de grade e de técnica, e não aumentar a exposição.
A segunda é mecânica. Num paciente com mais tecido, o braço pode não chegar tão perto do tronco quanto a incidência pede, a região de interesse pode não caber num único receptor, e os pontos de referência que se palpam para centralizar o feixe ficam mais difíceis de encontrar. A geometria precisa ser adaptada a esse corpo, não ao corpo médio para o qual a incidência foi descrita.
Cada repetição soma dose
Uma radiografia repetida significa, no mínimo, o dobro da dose para aquela incidência. Em trauma, significa também mover o paciente de novo, provocar dor de novo e atrasar uma decisão clínica que pode ser urgente.
Uma análise de 871 radiografias feitas em clínicas móveis nas Filipinas, publicada em 2025, encontrou uma taxa de repetição de 13,55%, acima da referência de 8% citada pelos autores. A causa mais frequente foi o posicionamento, que é decidido antes da exposição: respondeu por 44% das repetições, à frente da subexposição (19%), da superexposição (12%) e dos artefatos (10%). O contexto é específico (clínicas móveis, com cassetes processados em câmara escura), e esses números não se aplicam diretamente a outros serviços. Os autores recomendam treinamento de posicionamento com prática extensa, incluindo simulações e simuladores físicos.
Errar antes de existir um paciente
Acertar na primeira exposição depende de planejar a geometria antes de acionar o equipamento.
Na prática, esse planejamento costuma ser aprendido com o paciente de trauma diante do feixe. O caso difícil aparece sem aviso, no plantão, e o profissional em formação raramente teve a chance de experimentar, antes, o que acontece quando o tubo está angulado demais, quando o campo escapa do receptor ou quando a perna que deveria ficar imóvel é rodada.
Num simulador de radiografia, essas situações podem ser experimentadas antes do plantão, desde que a imagem resulte da geometria que o aluno escolheu. Duas perguntas ajudam a saber se um simulador permite isso:
- a imagem muda conforme a rotação escolhida, por exemplo separando estruturas que deveriam estar sobrepostas?
- num caso de suspeita de fratura, virar o paciente de lado gera uma advertência e obriga a montar o perfil com feixe horizontal?
Para servir ao ensino, o simulador também precisa declarar o que calcula e o que apenas representa, e ter os seus critérios revisados por quem pratica radiografia todos os dias. Esse é o assunto de outro texto.
A simulação complementa a prática supervisionada: permite que a primeira adaptação de uma incidência aconteça num exercício, e não com o paciente na maca.
Referências
- Steward A, Do C, Brazil T, Barresi M. The importance of patient positioning in radiography when utilising automatic exposure control. Journal of Medical Radiation Sciences, 2026;73(1):32-43.
- Alipio MM, Lantajo GMA, Pregoner JDM. Image repeat analysis in conventional radiography in mobile clinics: a retrospective observational study. Acta Medica Philippina, 2025;59(18):56-60.
- Zandee van Rilland ED et al. Optimizing radiography utilization: multidisciplinary expert consensus recommendations. Radiology, 2026;319(2):e252309.
- ICRP. The 2007 Recommendations of the International Commission on Radiological Protection. ICRP Publication 103, 2007.



